O chão também ensina

Caí mais vezes do que conto,
mas nunca aprendi a viver de joelhos.
Há dores que nos partem por dentro
e mesmo assim deixam uma fresta,
um sítio pequeno onde a luz insiste.

Não sou feito de vitórias grandes.
Sou feito de manhãs difíceis,
de passos dados sem vontade,
de portas fechadas com cuidado
para não acordar fantasmas antigos.

Houve dias em que o mundo pesou demais
e eu quase acreditei
que ficar no chão era destino.
Mas o corpo sabe coisas
que a tristeza esquece.
Sabe levantar-se antes da alma.

Trago cicatrizes sem medalha,
nomes que ainda ardem,
silêncios que não contei a ninguém.
Mas também trago esta teimosia limpa,
esta vontade pequena e feroz
de continuar.

Não peço ao tempo que me salve.
Peço apenas que me deixe caminhar,
mesmo torto,
mesmo lento,
mesmo sem saber ainda
que nome dar ao futuro.

Porque o chão também ensina.
Ensina o peso.
Ensina a queda.
Ensina a força escondida
de quem se ergue devagar
e segue, mesmo assim.

Noé Valente

Cedido por Francisco Fiúza

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