O mar fica depois de nós

Há dias em que o mar não chama.
Fica apenas ali,
a respirar contra as pedras,
como um animal antigo
que já viu partir todos os barcos
e mesmo assim não se cansou de esperar.

Eu olho-o da arriba,
com o vento a empurrar-me o peito,
e penso que talvez o mar saiba
aquilo que nós esquecemos depressa:
que tudo vem, tudo passa,
e nem por isso a água deixa de voltar.

As ondas não explicam nada.
Chegam, quebram, retiram-se.
Trazem sal, espuma, algas, rumor,
e uma tristeza limpa
que não pede consolo.

Há nomes que ficaram no fundo,
cartas que nunca chegaram,
promessas atadas à quilha
de barcos que perderam o caminho.
Mas o mar guarda tudo
sem fazer inventário da dor.

À noite, quando o farol acende,
parece que alguém escreve no escuro
uma frase para quem anda perdido.
Não diz regressa.
Não diz parte.
Diz apenas: ainda há luz.

E eu fico ali,
vigia sem torre,
homem sem mapa,
a aprender com a maré
que resistir também pode ser isto:
não vencer o mar,
mas continuar a ouvi-lo.

Tomás de Vigia

Cedido por: Francisco Fiúza 

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