As águas que descem da serra

Subi à serra como quem procura
um lugar onde o vento fale primeiro.
A estrada dobrava o corpo da montanha
e eu ia atrás dela, devagar,
com o frio a entrar-me pelos dedos
e o céu pousado nos ombros.

Lá em cima, a água não tem pressa de ser rio.
Nasce de pedra, de neve antiga,
de silêncios guardados entre fragas.
Depois solta-se, branca e viva,
como se a serra abrisse o peito
para deixar cair aquilo que já não cabe.

As quedas de água da Estrela
não caem apenas.
Chamam.
Trazem no corpo a memória do inverno,
a força limpa das alturas
e uma espécie de luz que não se explica.

Fiquei a ouvi-las,
como se cada fio de água soubesse
uma história anterior à minha.
Havia ali vento, musgo, rocha,
e aquela verdade simples das coisas
que continuam mesmo quando ninguém as vê.

A água batia em baixo
e levantava um pequeno nevoeiro.
Parecia sal sem mar,
espuma sem praia,
um oceano vertical
a nascer no meio da terra.

E eu, que tantas vezes procuro longe,
percebi ali uma coisa antiga:
às vezes a viagem não é partir,
é ficar diante da água
até o coração aprender
a descer também.

Vicente Sal


Cedido por: Francisco Fiúza

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