A cidade acorda cansada
Com passos que não são meus
Levo o dia atravessado
E a saudade atrás dos olhos
No bolso trago pouco
Mas pesa mais do que parece
Há silêncios que me seguem
Como quem nunca esquece
Aprendi a ir ficando
Quando tudo quis partir
Há um nó que não se solta
Mesmo quando sei sorrir
Este fado não me pede
Que eu me explique ou me salve
É um copo pousado à noite
E um nome que não se sabe
Canto baixo, quase em segredo
Para não acordar a dor
Quem ama carrega o medo
Quem fica, fica por amor
As casas sabem histórias
Que ninguém quer contar
Cada esquina tem memória
De quem passou sem voltar
Fiz da ausência morada
E do tempo, companheiro
Não sou dono de nada
Nem sequer do que eu quero
Há promessas por cumprir
Espalhadas pelo chão
Mas o coração insiste
Em bater fora do tom
Este fado não me pede
Nem perdão, nem razão
É um corpo contra o vento
A aprender a solidão
Canto baixo, quase em segredo
Para não quebrar a voz
Há destinos que se escolhem
Outros escolhem por nós
Se um dia eu for embora
Não é fuga, é direção
Levo a terra nos sapatos
E o mar no coração
Não reneguei o passado
Só aprendi a escutar
O que dói quando é dito
E o que dói mais calar
Este fado é um caminho
Feito a passo desigual
Entre o que fui perdendo
E o que ainda me faz ficar
Canto simples, canto inteiro
Sem promessa de final
Enquanto houver saudade
Este fado é meu lugar
Elias Vagar
Cedido por: Francisco Fiúza
