Não sou a fotografia nítida
Sou o desfoque que insiste
A sombra ao fundo da sala
Quando a luz já desiste
Trago o tempo na cara
Mesmo quando ninguém vê
Algumas rugas de riso
Outras de aprender a ser
Sou feito de tentativas
Que não couberam no plano
De silêncios escolhidos
E erros que ainda amo
Se me olhares com calma
Vês mais do que pareço ser
Sou casa sem planta certa
Mas aberta a quem vier
Não me peças linha reta
Nem um nome definido
Sou o que fica no meio
Do que perdi e do que vivo
Há dias em que sou porto
Outros em que sou mar
Tanto abraço como distância
Depende de quem vem ficar
Guardo vozes antigas
No fundo da respiração
Algumas chamam saudade
Outras pedem perdão
Não sou herói nem vítima
Sou gente em construção
Com medo bem dobrado
No bolso do coração
Se este espelho falasse
Talvez dissesse assim
Que eu aprendi a ficar
Mesmo longe de mim
Que não venci o mundo
Mas também não caí
E isso, às vezes, basta
Para chegar até aqui
Se me olhares com calma
Não tentes me resolver
Sou feito de contradições
Que aprenderam a viver
Este é o meu retrato
Sem moldura, sem fim
Um corpo cheio de histórias
E um nome escrito em mim
Elias Vagar
Cedido por: Francisco Fiúza
