Princesa da savana

Numa tarde já longa, em que o sol se tentava esconder , deambulava eu pelas ruas duma cidade maravilhosa como tantas outras que abundam neste nosso belo Portugal e, quando dei por mim estava numa belíssima praça ,daquelas que fazem inveja a muitos turistas que nos visitam . No largo que normalmente serve parque de estacionamento, dei de caras com algumas viaturas de grande porte, todas elas cheias de animais. Era o circo que se preparava para fazer as delícias da pequenada e proporcionar aos adultos o esquecimento, ainda que momentâneo, do sol que o sol da vida lhes nega. Fui andando por entre aquele carrossel de carros e calmamente ia apreciando aqueles animais selvagens a quem foi roubada a liberdade, leões, tigres, macacos, ursos e tantos outros. De todos eles o que mais me prendeu a atenção foi uma pantera: Negra, de olhos profundos e penetrantes, esguia e de pelo luzidio. Estava deitada numas palhas que o tratador lá tinha posto para lhe minorar o sofrimento, de vez em quando levantava-se e andava de uma lado para o outro naquela jaula minúscula, para trás e para a frente, até parecia que contava um a um os ferros que compunham as grades da sua "casa". Aquele olhar profundo e penetrante mexeu de tal maneira comigo que nessa noite eu não dormi. No dia seguinte, levantei-me e depois de beber um café dirigi-me novamente aquela "prisão" para admirar aquele magnifico e imponente animal. Lá estava ela! Em pé junto ás grades, até parecia que estava á minha espera. Nesse dia ousei chegar um pouco mais á frente e olhei-a fixamente, tinha uns olhos belos, penetrantes e meigos, mas o seu olhar era triste e dorido, estava um pouco agitada, pressentia que algo diferente se ia passar. De repente, aproxima-se da porta da "casa" e com a pata dianteira conseguiu abri-la. Fiquei petrificado, tal era o meu medo, mas a pouco e pouco consegui dissipar aquele sentimento que me tentava dominar. Aproximei-me, passei-lhe com suavidade as mãos pelo dorso, tentando com isso acalma-la. Reagiu bem e roçou-se nas minhas pernas como que a agradecer a atenção que lhe tinha prestado. Estava livre, livre daquelas grades que a amordaçaram durante tanto tempo, livre dos maus tratos que alguns lhe infligiram. Pensei que ia fugir, que ia partir para a liberdade há tanto sonhada e sempre sonegada, mas não: Deu duas ou três passadas, roçou-se novamente em mim, olhou-me, e de repente cravou-me os dentes. Que dor atroz que senti, senti a minha carne a ser perfurada e rasgada, foi uma dor lancinante. Enquanto me mordia olhava-me fixamente como que a pedir contas pela esperança que lhe tinha dado, subitamente largou-me e regressou novamente á "casa". Já não tinha forças para ser livre, não tinha forças para sonhar e tinha medo que eu a abandonasse, não podia trocar o certo pelo incerto , não podia pagar um preço tão elevado por uma liberdade que ela já se habituara a não ter e por isso me mordeu. Eu nada pude fazer. Claro que podia leva-la comigo e oferecer-lhe a liberdade que merecia, mas não podia proporcionar-lhe uma vida digna do seu porte majestoso e de uma Princesa da savana. Resolvi, por isso, que era melhor para ela continuar a divertir algumas pessoas neste palco da vida, ainda que morta por dentro. Virei as costas e parti, mas ainda hoje transporto comigo aquele olhar profundo e dorido da princesa da savana

 


António Maria


 


Cedido por: António Maria

0