Negro Manto

Na minha mente, incessantemente, procuro a imagem

Que me surripiaram noite escura, noite cheia,

Quando, no meu castelo, a contemplava das ameias.

Dizem-me que procuro o longe e quero a miragem

E como um D. Quixote busco a minha Dulcineia

Num negro oásis de queimadas areias.

Perguntam-me: porque não desistes de sonhar,

Não deixas de castelos no ar construir

E te acomodas sossegado no teu canto?

Respondo-lhes: ninguém me impedirá de voar,

Não desistirei de um novo porvir

Porque a vida, sem amor, é da morte o negro manto.

Que lutarei sempre por aquilo em que acredito,

Lutarei com o lápis, com o papel e com o tinteiro

E de dor, espalharei versos á minha volta.

De mim jamais dirão que dei o dito por não dito,

Escreverei para sempre e ao mundo inteiro,

Descarregando, assim, a minha ira e a minha revolta.

Que prefiro a morte a viver sem ter do amor o brilho,

Prefiro, até, que os cães urinem na minha tumba

E, por isso, não quero portas nem muros ao meu lado.

Porque é preferível jazer á sombra do negrilho

Junto ao rio que as raízes lhe inunda,

Que ficar no cemitério enterrado.

António Maria


 


Cedido por: António Maria

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