Eu e o tempo!

Estou como o tempo: ora faz vento ou chove, ora mostra sol e se sente calor.

Estou inconstante, enervo-me e rio com facilidade, choro e acalmo-me rapidamente, quero e deixo de lutar de repente.

Lembro as palavras de alguém e invejo a originalidade não ser minha: ... "Estou amargo",

Atípico

Amorfo

Apático

Preciso... preciso da paixão, da luta e ao mesmo tempo, canso-me dela, ela farta-me...

Eu quero é que chova a potes, faça ventos ciclónicos, ribombeiem trovões e se acendam relâmpagos! De uma vez por todas!

Se é para vir o vento, ele que venha já, que me sopre forte, me arranque a alma, me enterre na areia porque aí eu mostro-lhe o resultado de ter aguentado este cargo, esta carga durante tanto tempo: exponho-lhe o peito, até, se ele quiser, rasgo a camisa e arranho a pele para que ele sopre nas feridas que entretanto sangrarem. Ele enterra-me na areia mas não me esconde porque eu não me escondo de nada. Aponto-lhe até, se ele quiser, o lugar onde fica o meu coração para ele soprar mais forte...

Mas que venha já! E então eu mostro-lhe quem sou e quem ele não é: ele não é mais "elemento" que eu. Posso até cair mas não quebro, posso até chorar mas as lágrimas, as minhas, eu seco-as com os punhos antes que ele tenha tempo de mo fazer com o seu sopro. E ele não me verá chorar, só reparará nos traços que elas deixarem no meu rosto mas aí... tarde demais, caro vento!

Vai chover? Que chova!

Mas que chova a sério, não estes pingos pretensamente fortes, pretensamente húmidos, pretensamente inquietantes, pois inquietante tem andado a minha alma, pois saturado tem andado o meu espírito, pois preparado tenho andado eu para a trovoada, para a revolta, para a borrasca que tarda em chegar.

Vai chegar a chuva? Então que chegue já, para eu descarregar nela toda a minha ira, a minha força, o meu ódio, a minha impotência! Se ela pensa que me vou proteger, engana-se: vou expor-me e quando relampejar, eu grito, grito palavras proibidas, secretas, rezas ocultas em latim, hebraico ou sirílico mas aos berros... E quando o relâmpago se extinguir, eu continuarei a gritar porque ele não será mais forte que eu.

Eu não sou daqueles que o tempo, porque passa lento, acalma, abranda, amansa. Não!

Sou de ficar à chuva, ao vento, de olhar para cima para ver bem os relâmpagos e troçar deles pelo medo que não me trazem. Rio-me deles, faço troça até:

- O quê? Só isso?

- Estou aqui!

- O meu peito? Está aqui!

- É isso o efeito de estufa?

- São esses os buracos na camada do ozono?

Soprar? Relampejar?

Que ironia! Que fraqueza!

Não é inconsciência, nem irresponsabilidade...

É a destreza,

A capacidade

De ser homem e de amar!

Nota.

Este texto representa a minha impotência, a minha raiva e o meu ódio perante situações para as quais não tenho "antídoto"...... apenas me resta a luta permanente e tenaz , a vontade férrea e a convicção de que, no final, sairei vencedor....cá ou lá.

 


António Maria



Cedido por: António Maria

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