Coragem

Desde muito pequeno que sofria de terrores nocturnos, mas não dizia nada a ninguém, porque sabia que se o dissesse, fariam com que se sentisse pior e ficaria ainda mais isolado. Teria que se fechar para o mundo, para aquele mundo que lhe parecia tão irreal e tão desprovido de qualquer sentido de realidade.

Percebia todas as coisas que á sua volta se passavam, embora muitas vezes não as entendesse. Pensava e acreditava que quando deixasse de ter medo a sua doença estava curada, que quando conseguisse ganhar coragem para a enfrentar a mataria.

Tinha medo de tudo, do ar inóspito contido naquelas serras onde vivia, das suas gentes que se matavam de trabalho a troco de uma côdea de pão, da cor negra daquele céu que parecia ter sido esquecido pelos Deuses.

Por ter tanto medo, descobriu que só com coragem conseguiria vencer, vencer aquele medo que o atormentava, que o devorava e consumia. Quanto mais medo tinha mais coragem ganhava.

Assim, e por obra do acaso, cedo partiu para terras de além – mar, e ali, junto de belezas indescritíveis, contemplando paisagens que só alguns têm o privilégio de admirar, teve a coragem de começar a sonhar, de escrever o que sentia, de passar para o papel pensamentos e sensibilidades que só alguns sentem. Teve a coragem de falar através do velho lápis, faze-lo pintar sonhos, escalar montanhas, galgar fronteiras, quebrar correntes e libertar-se do medo.

Teve a coragem de sonhar o sonho dos que não sabem sonhar, de ser representante dos fracos, dos medrosos e oprimidos, teve a coragem de arrumar os sonhos numa gaveta e parar... parar de sonhar.

Teve a coragem de voltar, de constituir família, de planear e lutar pelo futuro dos filhos, coisa que outros abandonam nas ruas. Teve a coragem de se sentar á mesma mesa com eles para ouvir as suas histórias e problemas, teve a coragem de os fazer compreender a necessidade do diálogo, da luta permanente, da busca interminável pelo conhecimento. Teve a coragem de se esquecer de viver a sua própria vida e de se esquecer dos seus sonhos.

Teve a coragem de, mais tarde, voltar a escrever outros sonhos e poemas, de dizer mentiras e verdades, mas teve, acima de tudo, a coragem de amar, de viver um amor proibido. Teve a coragem de se entregar aquele amor que, mesmo sem o saber, o alimentava e fazia sonhar. Teve coragem para o versejar, para o colorir, para o declarar a todos através das palavras escritas, mas não teve a coragem para o alimentar, para o compreender, para gritar bem alto e aos quatro ventos o quanto estava dependente dele e por isso o deixou morrer.

Teve coragem para tudo, menos para viver de acordo com os seus sonhos, de seguir o seu coração. No fundo a única coragem que teve foi a de viver unicamente para e em função dos outros, esquecendo-se dele próprio. Mesmo naquele amor que o marcou e marca de forma tão indelével, mais uma vez seguiu a vontade de outros e não a sua, manifestando assim a sua não cura dos medos que sempre o acompanharam e que pensava estarem vencidos.

 


António Maria


 


 


Cedido por: António Maria

0