Ultimamente não há dia, hora, minuto ou segundo que eu não pense em ti. Há muito tempo que não nos vemos e eu acredito que são as saudades que gritam dentro de mim. O que mais custa são as noites, as noites longas e solitárias, os gritos lancinantes do coração quando, na penumbra do quarto e pela calada da noite, nos pede contas por aquilo que lhe fizemos, quando nos questiona sobre a razão de o termos amordaçado, de o termos extinguido. Mas são essas sensações, esses sentimentos dolorosos que me mantêm vivo e me dão força para continuar!
Ontem, eu tentava compor uma poesia, após a minha inspiração se ter calado por tantos dias. Escrevia um verso, queria o outro que não chegava. Completava uma quadra e relia-a, não gostava. Apagava, reescrevia, e nada! Fui escrevendo versos, da forma como me vinham á mente, um retoque aqui, outro ali, e descobri que o que eu sentia estava ali, num mundo de quadras desconexas, enfim, uma poesia muito má! Achei que não deveria publicá-la, porque não era digna da tua grandeza.
Então, resolvi ir arrumar o escritório e passar revista aos meus arquivos, coisa que há muito tempo não fazia. Juntei montanhas de papelada sem qualquer utilidade, meti tudo num grande saco de plástico para deitar no lixo. No meio de tanta coisa velha encontrei uma disquete com alguns poemas que tinha escrito, datados de 2004. Ao ler aqueles poemas verifiquei que nunca te tinha dito que os tinha escrito, o que não me perdoo.
Sentei-me na cadeira, recostei-me, fechei os olhos e passei em revista tudo o que se tinha passado nestes últimos três anos e meio. Lembrei-me com muito mais nitidez de todos os acontecimentos, dos motivos que agora me são muito mais claros, que te levaram a tomar a atitude que tomaste. Foi preciso coragem, muita coragem para renunciar a VIVER, para desistir, para viver morrendo, para fazer de conta.
Entendi, por que motivo te fizeste tão presente nos meus pensamentos nos últimos dias. Entendi, porque tenho sentido tantas saudades depois de tanto tempo sem nos vermos. Entendi, que aquilo que dizíamos, que comentávamos nas escassas conversas que tínhamos, acontecia e eu nem me dava conta disso! Agora entendo tudo! Entendo a tua grande estatura moral, entendo o imenso orgulho que sinto quando penso nos nobres motivos que te levaram a tomar semelhante atitude, entendo agora o porquê de, de quando em vez, uma lágrima matreira escorrer pelo teu formoso rosto, entendo o porquê de não me quereres ver, entendo a tua luta titânica para levares por diante a tarefa a que te propuseste. Entendo perfeitamente tudo!
Entendo que o que foi dito, quando os teus olhos estavam dentro dos meus, faz agora todo o sentido, entendo que, quando falávamos (as poucas vezes que o fizemos) frente a frente, sentados naquela mesa branca, é hoje mais actual que nunca. Entendo o porquê de os teus olhos terem ficado marejados na primeira vez em que estivemos juntos. Entendo tudo! Só lamento é que o barco onde navegas tenha só um timoneiro e que sejas obrigada a remar sozinha contra a maré, contra ventos e tempestades. Lamento que, mesmo hoje, não te seja reconhecido o valor que realmente tens, embora reconheça que, muitas vezes, não é por não o sentirem, mas talvez seja porque se habituaram a ser assim. Mas tu mereces muito mais! Mereces e precisas.
Hoje sei que, tal como tu moras e morarás para sempre em mim, eu ainda moro em ti. Só assim faz sentido tudo o que entre nós se passou.
Descansa! Nada fizeste de mal, tu és assim. Apenas queres ser amada! Tu doas-te, tu entregas-te, tu cantas amor, tu és poesia, tu és amor! As pessoas por vezes abusam da tua bondade, aproveitam-se dela e servem-se de ti! Eu prometo-te que lutarei contra a minha vontade louca de te ver, de te abraçar, de ouvir a tua voz, de te telefonar, de ir ao teu encontro, mas mentiria se dissesse que não tenho esperança que as nuvens se dissipem. Foste, és e serás para todo o sempre a única mulher que amei/amo. Até sempre Princesa!
António Maria
Cedido por: António Maria
