Febre

 sopra um vento pelo peito do mareante - vento

 cinzento capaz de apagar os gestos que restam e

 de limpar os passos incertos pelas ruas do cais

 

 vento

 um vento que te sacode as veias os tendões

 faz vibrar os músculos e a mastreação - como a árvore

 que se desprende das entranhas do mar

 

 corre

 corre um vento pelas fissuras da pele - vento

de pó enferrujado abrindo feridas nos animais vivos

 colados à memória onde

 uma serpente mergulhou no sangue e

 desata a fulgurar

 

 sopra um vento pelo peito do mareante

 desperta a florescência pálida do plânton - varre

 a noite e lava as mãos dos condenados à morte

 

 corre um vento

 vento de febre - sismo de orquídeas que acalma

 quando acende a luz e abres as asas

 vibras e

 levantas voo

 

 de "Horto de Incêncios, 1996

 

 Al Berto

KYRIE

 

 

Cedido por: Xana

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