Dilúvio

o grande rio envolveu a lua


a porta do quintal emigrou


o homem engoliu-se na sopa


o telefone preto empalideceu

a igreja ruiu o sapo sorriu-se


o precipício desmoronou


o relógio da torre secou


a língua caiu no copo


a mãe ceifou um filho


o emprego ficou disponível


o oito fez de contas


o nove voltou ao zero


o astronauta casou-se por lá


o mar fez outra curva


o rádio omitiu-se


a onda ficou curta


o cigarro ficou-se

o fósforo nem se fala


a carroça gemeu para trás


o poço escondeu-se no chão


a música enganou-se na letra


o governo fez férias pagas


o judeu matou-se no banco


o som dispersou-se na multidão


a greve tropeçou nos andaimes


a formiga atacou


o boi em pé


o inimigo sentou-se em frente


o cérebro estudou a electrónica

a tinta anoiteceu a verdade


o pinhal ficou irreconhecível


o tambor latiu para o compasso


a festa caiu desanimada


a primeira dama menstruou


o gato vomitou um crucifixo


o sangue retomou à chaga


a bala perdeu-se no olho


o verme sofreu um transplante


a missa afogou-se no esterco


a nuvem foi também costurada


a impressão digital mentiu


o peso foi descoberto ligeiramente


o ladrão ficou mais paralítico


a luz perdeu o medo do escuro


a guerra gerou os prós e os contras


o pobre ficou onde o outro estava


o rei descorou ao sol


o gelo esfaqueou


o galo a lã cobriu a merda da capital


a cobra mutilou-se parcialmente


a doente pousou a sua última mão


a santa abriu logo o ventre


a esperança subiu com o preço


a paz ficou mesmo com três letras


o pão foi vendido em spray


o terror abriu uma cooperativa


o Vaticano faz só o leilão

a fronteira troca caixotes


a estação foi atrelada ao trem


o psiquiatra inventa um anão


o cemitério deu em heliporto


a fúria tem salão anual


o ano novo falará todas as línguas


o último morto será homenageado


o cego não tem nada a ver com as calças


o novo vulcão dá até as horas


os minutos dão sempre os segundos


a tv dá as pérolas aos porcos


a paróquia dá os foguetes


e venha a nós o vosso voto


amem.


 


Fernando Lemos


Cá e Lá - Poesia


Biblioteca de Autores Portugueses


 


 

Cedido por: Xana

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